Por que é difícil parar de fumar? O quebra-cabeças neuroquímico

July 30, 2019

 

            Meu pai foi um fumante, muito antes mesmo de ser meu pai, não sei precisamente quando ele começou a fumar, mas foi cedo, muito cedo, talvez um pouco depois de ter ingressado nas responsabilidades da vida adulta, o que aconteceu em torno dos seus 10 anos. Quando eu aportei na minha família, ele já tinha seus 38, então, conheci meu pai com o cigarro fazendo parte da extensão do seu braço. Na época minha irmã e meu irmão já eram pré-adolescentes, o que contribuiu para que eu dormisse toda minha infância no quarto de meus pais, porque os outros dois quartos já eram propriedade de meus irmãos. Assim, vivenciei as tosses noturnas de meu pai, vivenciei o último cigarro antes de dormir, vivenciei as reclamações da minha mãe, a qual não era fumante.

              Guardo até hoje na memória a imagem da carteira de cigarro que ele fumava, Minister, azul e branca, como tal marca não é mais comercializada, me permiti citar seu nome. Quando criança eu não tinha uma visão crítica do ato de fumar, mas ouvir as tosses noturnas e posteriormente diurnas, era bem difícil, não por atrapalharem meu sono, mas sim por ter a percepção dos efeitos que o cigarro fazia na vida de meu pai.

            Como eu já disse, não sei quando meu pai deu sua primeira tragada, mas sei que naquele momento, quando a primeira dose de nicotina chegou no seu cérebro, ele, o cérebro, percebeu a presença de uma substância até então desconhecida e iniciou imediatamente o processo de reconhecimento da mesma, pois caso fosse necessário nosso sistema de defesa iria tomar uma atitude contra ela. Neste momento crucial de tomada de decisão, um receptor que habita nosso cérebro, chamado Nicotínico, seu nome completo é Receptor Colinérgico Nicotínico dos Circuitos de Recompensa, sentiu-se atraído pela Nicotina. Ele percebeu que ela encaixava-se perfeitamente no seu sítio de ligação, como uma peça de quebra-cabeças ou como uma atração à primeira vista e, como toda peça de quebra-cabeças quer sua parte que falta ou toda forte atração quer se aproximar do outro, a Nicotina ao invés de ser destruída foi captada pelo Nicotínico. Quando eles se ligaram, ocorreu uma sensação muito prazerosa, porque naquele momento foi ativado o sistema de liberação do neurotransmissor de dopamina, mais especificamente a Via Mesolímbica Dopaminérgica, a qual está relacionada tanto a sensações de prazer como ao circuito de motivação e recompensa. Assim, já no primeiro cigarro iniciou-se a relação entre a Nicotina e o Nicotínico, ou se você preferir entre meu pai e seu cigarro.

           Não sei se o primeiro cigarro do meu pai foi fumado inteiramente, ou compartilhado com algum amigo, mas pense que para consumir um cigarro inteiro são necessárias várias baforadas, o que significa que a Nicotina vai chegando ao cérebro em intervalos de doses e assim gradualmente vai conectando-se aos tantos receptores Nicotínicos presentes no cérebro, preenche um, depois outro e assim sucessivamente, desencadeando sensações prazerosas contínuas. Quando o cigarro termina, a Nicotina foi consumida e o Nicotínico cansado, precisa se recompor, ou seja, necessita de um tempo para voltar ao normal, seu estado de repouso. Neste momento nenhuma Nicotina consegue ligar-se a ele novamente, talvez isto explique porque a maioria dos fumantes não consome um cigarro imediatamente após o outro, seria um desperdício, pois as sensações prazerosas não seriam produzidas, pelo ao menos não para um fumante de iniciante a médio, onde o sistema de compulsão ainda não foi acionado. Depois que o Nicotínico descansar, ele não só irá poder conectar-se novamente à Nicotina, como vai querer muito que isto ocorra, porque afinal a sensação de prazer desencadeada por tal ligação, foi forte, prazerosa, pulsátil, ou seja, mais intensa que os processos naturais de liberação de dopamina, e assim o ciclo de repetição do comportamento de fumar se instaura. Este ciclo vai sendo repetido e o processo de dependência desencadeado.

       Tais reações químicas ocorrem em todas as pessoas que fumam, porém existem fatores genéticos, ambientais, sociais e culturais que irão influenciar no desenvolvimento da dependência do cigarro. Eu, por exemplo, não sou fumante, pode-se até dizer que tenho aversão ao cigarro, as tosses noturnas estão presentes na minha memória até hoje, e ajudaram a tornar o ato de fumar aversivo para mim, o que foi reforçado no decorrer dos anos pelo câncer de pulmão que fez com que meu pai partisse deste mundo muito cedo, além de fazer  com que eu associa-se cigarro a perdas, a sofrimento e a doenças. Já, com minha irmã mais velha o processo foi outro, ela foi fumante durante muitos anos, o vício do meu pai , neste caso teve uma função de reforço positivo, além de outros contextos da sua própria vida. Cada pessoa tem sua singularidade e o desenvolvimento de uma dependência ou vício exige um olhar amplo, incluindo aqui aspectos emocionais.

           Todo este complexo processo neuroquímico, por si só, já seria suficiente para explicar a grande dificuldade que os fumantes encontram ao tentar parar de fumar, porém existem ainda outras funções que agravam este contexto, como o fato do cigarro ser uma companhia em momentos de solidão, uma máscara para situações de insegurança, um auxiliar nos quadros de ansiedade, e tantas outras coisas que só um fumante poderia elucidar. Talvez neste momento você esteja se perguntando:

                - Seu pai conseguiu parar de fumar?

            Sim, ele conseguiu, porém antes, chegou a consumir duas carteiras por dia. Ele parou de fumar quando sentiu que seu corpo não tinha mais condições físicas de suportar o cigarro, quando as tosses ficaram incontroláveis, quando ele percebeu que a vida era mais importante que a morte. Assim, somente através da percepção, ou melhor, da conexão com o que de fato era importante para ele, que foi possível encontrar motivação e  persistência para conseguir sair daquela relação de dependência. Eu acompanhei o processo de deixar de fumar do meu pai, no momento que ele disse para si próprio que iria parar, nunca mais colocou um cigarro na boca. Foi algo imensamente difícil, mas foi a estratégia mais eficaz que ele poderia ter escolhido.

         Podemos compreender tal eficácia avaliando os processos neuroquímicos que ocorreram a partir da suspensão do ato de fumar. Pense que, diariamente, o Nicotínico e a Nicotina se encontravam, estavam sempre juntos, havia uma relação de afinidade e dependência entre eles. Até que em um determinado dia a Nicotina não apareceu, ele estranhou sua ausência e chamou por ela, chamou inúmeras vezes, mas todas tentativas foram em vão. O desespero se instaurou, o Nicotínico gritou, chorou, esperneou, ou seja, suas tentativas ficaram cada vez mais intensas, ele utilizou todas as estratégias que dispunha para trazê-la de volta, mas ela não voltou. Neste contexto meu pai sentia o desespero do Nicotínico, foi difícil não sucumbir as insistências, mas ele resistiu, resistiu porque percebeu que estava doente. Como nada adiantou, depois de muito, mas muito mesmo tentar, o Nicotínico cansou e desistiu, e assim com muita dificuldade o ato de fumar foi extinto.

            A dificuldade de parar de fumar, não necessariamente exige tantos anos de consumo, a relação de afinidade com a nicotina é tão intensa que mesmo após um mês de uso do cigarro, já pode se instaurar o processo de dependência e consequentemente a dificuldade de interromper seu uso. Aquela frase que muitos fumantes dizem: - Eu paro quando quiser , não se iludam, não é bem assim que o processo funciona, pois como vocês viram existem reações neuroquímicas que influenciam nossas decisões.

              Algumas pessoas nas tentativas de parar de fumar escolhem fazer uma diminuição gradual do consumo, caso a estratégia escolhida por meu pai tivesse sido esta, provavelmente ele não teria conseguido parar de fumar de forma tão eficaz. Vejamos porque: Ao perceber a ausência da Nicotína, o Nicotínico fica nervoso e inicia seu escarcéu de chamar, gritar, chorar, espernear.....até que em algum momento aleatório ela simplesmente aparece. Neste caso, ele aprende que suas tentativas de trazer novamente para junto de si a Nicotina são eficazes, e assim reforçamos o comportamento de insistir do Nicotínico, ou seja, ao invés de fazer com que ele desista, induzimos o Nicotínico a ser mais perseverante nas tentativas de obter o prazer que a nicotina oferece. Neste processo de diminuição gradual, em algum momento podemos ficar vulneráveis devido a questões da vida, e como o cigarro continua por perto, é muito mais fácil que os padrões antigos do hábito de fumar retornem.

            Assim como um amor inesquecível, as memórias desta relação tão íntima com o cigarro ficam armazenadas na mente de todo ex-fumante para o resto de sua vida, podendo a mesma ser acionada ao se deparar com um contexto semelhante, seja um cafezinho, estar em um ambiente com fumantes ou mesmo um sentimento de ansiedade. Alguns ex-fumantes relatam ter desenvolvido aversão pelo cigarro, outros porém falam que mesmo depois de anos ainda sentem vontade em muitos momentos.

       O fato é que sim, parar de fumar é um processo extremamente exigente, e só é possível conseguir quando existe um valor associado a ele, ou seja, algo muito mais importante do que fumar. No caso do meu pai isto só ocorreu quando ele percebeu a doença na sua forma física, apenas saber que o cigarro era prejudicial não foi por si só uma motivação suficiente para interromper o vício. Um outro exemplo eficaz são as mulheres que ao engravidarem conseguem parar de fumar, neste contexto ser mãe e cuidar do seu filho consiste em uma motivação suficientemente forte para interromper o uso, muitas não retornam o hábito, por entenderem serem exemplo para seus filhos, por autocuidado, outras já não resistem e após o momento de amamentação voltam aos padrões antigos .

            A questão é que:  cigarro apesar de lícito, é extremamente nocivo, e a melhor forma de evitar é nunca experimentar. Eu entendo o contexto da vida de meu pai, que o levou a sua dependência, porém se sua escolha tivesse sido outra, talvez hoje ele teria conhecido seus netos e bisnetos e eu não precisaria ter apresentado meu pai por foto, para meu sobrinho de 6 anos, o qual queria muito ter conhecido o avô.

 

Referências:

 

MOREIRA, M. B.; MEDEIROS, C. A. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. São Paulo: Artmed, 2007

STAHL, M. STEHEN. Psicofarmacologia Bases Neurocientíficas e Aplicações Práticas (4ª ed.). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014

 

 

 

 

 

 

 

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