SERÁ A LOUCURA UMA VIAGEM SEM VOLTA? Um olhar sobre o Suicída da Sociedade, Menos Que Nada e Bicho de Sete Cabeças.

May 20, 2017

     Cada indivíduo é único e vivência a vida de forma singular, onde  o sentir não pode ser transformado em palavras, salvo pela poesia, que como toda  expressão de arte tem a sensibilidade para criar.

 

   

    Seria Van Gogh louco? Louco por se permitir viver unicamente de sua maior paixão a pintura. Van Gogh, através da arte expressou sua visão do mundo exterior e também seus anseios mais profundos de uma forma única, mas a sociedade da época não conseguiu  conviver com o real e imaginário simultaneamente, ela não estava preparada para o questionamento sobre a vida, suas verdades, seus encantos e sofrimentos. Van Gogh viveu sempre na exclusão devido aos seus comportamentos sociais, os quais não eram aceitos ou mesmo compreendidos. Van Gogh entrou em exaustão pela sua luta de viver de acordo com sua vontade e ideais e a pressão do meio foi tão arrebatadora que o fez entender-se como louco e como louco ser internado em uma instituição psiquiátrica.

 

                   Assim como a história de Van Gogh, o filme Menos Que Nada, emociona e instiga desde as primeiras cenas onde o protagonista, Dante, vive enclausurado dentro do seu eu, cavando buracos incessantemente e simulando a morte, aliado a comportamentos agressivos. Internado em um hospital psiquiátrico por um longo período e simultaneamente abandonado  dentro da própria instituição, sendo renegado a sua própria solidão, onde o descaso dos profissionais de saúde compactuam para a permanência da doença. Neste contexto a medicalização surge como uma aliada da alienação, pois a mesma é vista como uma oportunidade de contenção do paciente, para aliviar as dificuldades encontradas pelos profissionais ali inseridos. Entendo que a medicação, e não a medicalização, é importante e eficaz, mas desde que seja utilizada dentro de seus preceitos farmacológicos, avaliando assim a melhor droga, suas interações farmacológicas, efeitos terapêuticos,  efeitos adversos e desenvolvimento de tolerância, para ela ser um auxiliar no tratamento e proporcionar uma melhora do paciente.  O filme também mostra novas perspectivas de melhora a partir de um olhar individual e um entendimento dos fatos geradores do problema, buscando assim novos meios de promover a integração consigo e com a vida.  

 

           Já, no filme Bicho de Sete Cabeças a família decide e impõe a internação de Neto, pois segundo seu entendimento esta era a melhor solução para o problema. A internação psiquiátrica é um meio onde a sociedade e dentre esta a família, dispõem para solucionar o problema de conviver com o inesperado. Neto que não era louco, nem mesmo apresentava alguma alteração psíquica que justificasse tal procedimento, acabou sendo absorvido pelo meio onde foi inserido. Foi medicado indevidamente, foi tratado com descaso, suas palavras ecoavam no silêncio ou no intenso barulho da loucura. Enclausurado e sem contato com o mundo exterior entrou em sofrimento profundo, ocorrendo assim a produção da doença. Ao sair do hospital Neto já havia sido sugado pelo meio, suas faculdades mentais já estavam em sofrimento, ele não era mais o mesmo, pois precisou adaptar-se para sobreviver e sofreu as consequências. Neste filme evidencia-se a ambiguidade do sistema, o qual ao invés de produzir saúde , desenvolve  doença.

 

    O que Van Gohn, Menos Que Nada e Bicho de Sete Cabeças tem em comum? Será a loucura? Será um caminho sem volta?

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     Ao refletir sobre isto, visualizo o homem imerso dentro de uma sociedade contida, mas também um homem com vontade de viver, com angústias, com medos e com todas as infinitas possibilidades de sentimentos, vontades e desejos. São tantos os significados de uma vida, tantos sentimentos difusos e também confusos e dentre tantas e inúmeras introjeções a vida pode produzir a loucura ou a loucura pode produzir a vida.

 

    A doença mental, ou a loucura como é chamada no âmbito popular também teve no decorrer da história inúmeras interpretações. Pinel por exemplo, chamou-a de alienismo mental, a qual ocorria devido a distúrbios no âmbito da paixão, produzindo desarmonia mental e impossibilitando que o individuo percebesse a realidade, a alienação no âmago da palavra significa estar fora da realidade, sem o controle das vontades e desejos. Independente da nomeação o “louco” sempre teve o poder de questionar o mundo e fazer pensar, ele amedronta pela  ousadia e imprevisibilidade. 

 

                     Assim me pergunto:  - Será a loucura é uma viagem sem volta aos estados da alma? Porque, assim como a alma, a loucura está para além do material, do palpável, do racional e foi assim chamada para explicar o inexplicável.

 

 

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